uk uk londontuga: Eugénio de Andradeu uku

Tales from London from a Tuga's point of view. (Tuga << Portuga << Portuguese)

June 13, 2005

Eugénio de Andrade



It my dearest friend Marta who introduced me to Eugénio de Andrade's poetry back when I was on my early twenties. It was this poem that made me realise what I was missing.

I cannot translate poetry. Sorry about that.


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes

E eu acreditava.

Acreditava.

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

in «Os Amantes sem Dinheiro» (1950)

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

tenho uma lágrima no canto do olho

´ It was this poem that made me realise what I was missing´

sim, sim, isso tudo

June 14, 2005 2:45 pm

 

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